quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Juntos formando o misturado


É inerente ao processo de formação da nação brasileira a condição de mistura e fusões. Da intensa miscigenação inter-racial dos índios, negros e europeus do período colonial à atual acepção de música brasileira como um exercício edificador da pluralidade singular do Brasil, fez-se presente a bricolagem e hibridação de hábitos, valores, culturas de vários povos.
Pensar num Brasil de manifestações culturais e artísticas originalmente puras é negar o processo histórico de construção de uma identidade tipicamente brasileira. É nesse contexto que cai por terra a caracterização da brasilidade com uma auto-imagem, genuinamente, fincada somente na raiz, na origem e na tradição.
No âmbito da representação nacional, a música é um elemento ímpar de caracterização do Brasil no exterior. De fato, como resultado de processos históricos, expressões dos anseios de uma época, introspecções frente à modernidade e escolhas estilísticas, por que não utilizá-la para a construção da identidade cultural brasileira? Essa inquietude foi o marco de surgimento do movimento tropicalista no final da década de 1960.
Em um contexto bastante parecido com as aspirações dos modernistas na Semana de Arte Moderna de 1922, a Tropicália deflagrou uma nova maneira de se pensar Brasil. Do movimento antropofágico de 1922, a deglutição de manifestações culturais de vanguarda europeia, primando pelo não academicismo da arte, incorporou nos modernistas uma produção nacional, que não necessariamente desapropriasse as tendências da Europa. No movimento tropicalista, também houve a preocupação com a auto-imagem que denotava à busca de uma identidade representativa do Brasil. Em meio à turbulência da ditadura militar, o cenário musical brasileiro estava representado por três distintos grupos. A música de protesto tornava-se hino esquerdista contra a ditadura, não admitindo influências da música estrangeira. A bossa-nova, no auge dos anos 1960, mesclava jazz americano e o samba brasileiro numa mistura muito rica harmônica e melodicamente, porém descomprometida socialmente. E, por último, tínhamos a Jovem Guarda com uma versão nacional do rock da Inglaterra e dos Estados Unidos, de olho no público jovem.
Eis que surge a Tropicália com o intuito de adentrar na modernização e reformar o conceito nacional da brasilidade. Divididos entre aplausos e vaias do público, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, Rita Lee, Arnaldo Baptista, Tom Zé, Nara Leão, Gal Costa, dentre outros artistas, fizeram do tropicalismo um movimento da contracultura brasileira.
A construção simbólica de um Brasil misto, vivo, aglutinador e efervescente levou os tropicalistas a incendiar o cenário musical do país na época. O intuito era apropriar do berimbau à guitarra elétrica, do psicodélico ao erudito, do folclórico ao pop, do rústico ao moderno, do caipira ao urbano. E tudo isso, regado a críticas sociais, a intertextualidades e metáforas dos letristas.  O resgate de uma identidade nacional pautou-se sob o parâmetro de exposição dos antagonismos e pluralidades existentes em todas as manifestações culturais do país. 
Miscigenação da nossa origem étnica, fusões que transformam e são a nossa cultura. E assim seguimos feitos de mistura: juntos formando o nosso misturado.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Sem pró-liticagem




     De tanta leitura de impressões e análises subjetivas do dia-a-dia, eis que chega a minha hora. Para relatos peculiares, nada mais digno do que a minha, a sua, a nossa pouca requisitada idiossincrasia. E é sobre ela mesmo que vim falar, numa mescla de falar em si para falar de Si.
      Refiro-me a Simeyzon, prefeitável de Goiânia nas eleições 2012. Nada pessoal, só a título aleatório de riso ilibado e de praticar a não pró-liticagem. A ocasião a que me refiro foi o debate com os candidatos à prefeitura na Casa da Juventude (Caju), ali no setor Universitário no dia 31 de agosto. Meu primeiro contato, confesso, com dois dos prefeitáveis ali presentes. Um deles era este mesmo vereador Simeyzon, do Partido Social Cristão (PSC), a quem dedico a minha rara primeira pessoa literal à sua literal primeira pessoa. O outro era José Netho, do Partido Pátria Livre (PPL). Ambos com o discurso de inovação.
     Nada mais democrático do que a liberdade de escolha. Mais democrático ainda é a escolha de não participar de um debate democrático. Na Caju, estiveram presentes o lindo marxismo do Professor Pantaleão, os direitos da mulher de Isaura Lemos, o radialismo de Elias Júnior, além do novo José Netho e do pastor Simeyzon. Não deram as caras Rubens Donizetti, Jovair Arantes e o atual prefeito Paulo Garcia, tampouco as bocas. Mas quanto capricho, ora pois, afinal eles participaram, assiduamente, da conversa global na 2ª Edição do Jornal Anhanguera. Simpatia e sorriso bonito no horário nobre de Goiás. Não precisava de nada mais, não?!
     Sim! Simeyzon. Voltemos a ele. Na democracia do debate, estava lá ele, robusto e bonitão, barba bem feita transpirando eloquência. Ex-aluno de Pantaleão, moço de bons costumes, de boa família, de exímia religião. O genro prefeito – digo... perfeito - para qualquer mãe caso ele não fosse casado. Com toda essa compostura, meu interno riso ilibado surgiu com a amplificação do microfone em suas mãos. Diga-se de passagem, tudo que vem do audível, música, sons, fonemas, ecos, ruídos e silêncios me alucinam.
    Com a palavra estava ele, no seu momento Simeyzon. Chamava a atenção pelo charme e pela auto-confiança. Confiança demais que até massageia o próprio ego. Mas não adianta fugir, nem mentir pra Simeyzon agora. Há tanta vida lá fora. E é dessas vidas que ele fala quando explicita uma de suas principais propostas: a criação de 30 novos Centros Municipais de Educação Infantil, os Cmeis.

Da esquerda para a direita: José Netho, Isaura Lemos,
Professor Pantaleão, Elias Júnior e Simeyzon

     E quanto mais a temática da educação ressoava pelas vozes dos mediadores do debate, lá no fundo do ele calado, batia no peito para proclamar a sua primeira pessoa. Cmeis, Cmeis, Cmeis. Credo! Haja tanto Simeyzon para um ego só.
     A mais fidedigna atitude de sua personalidade foi ele participar do debate somente quando estava com o microfone em mãos. No resto do tempo sem fala, ele, intimamente, fechava-se no seu caro mundo digital interagindo com seu tablet, ou sabe-se lá o que era aquilo. Inebriada por tamanho eco do ego, o centrismo de si mesmo – leia-se, mais uma vez, Simeyzon – e os fonemas que formam o seu nome me encorajaram a essa voz em primeira pessoa.  
    Se na pastoril condição de prefeitável ele já se esbalda do egocentrismo do cmeismo, imagine só se o brado retumbante dos eleitores proferir “Sim!!! Sim mesmo!”. 

sábado, 12 de novembro de 2011

Cassetête-à-tête



Fácil, fácil é estabelecer o tête-à-tête. Um burro fala, o outro abaixa a orelha. Um ditado muito conhecido pelo Brasil e duramente ditado também por ele, desde os tempos modernos dos anos de chumbo. Essa é a sublime ordem arbitrária que fomenta o progresso reverenciado na bandeira do nosso país.
O infortúnio dos Xavantes que, em forçosa aclamação à história imperialista do Brasil, se transformam na Rua Xavantes do Conjunto Anhanguera, bairro da região sudeste de Goiânia, também é o infortúnio de quem sofre por não se submeter à calada da madrugada escura do dia 8 de novembro de 2011.
O “é proibido fumar”, de Roberto Carlos, já entoava, em 1964, os sons da balbúrdia que seria armada em 2011, desde o dia 27 de outubro, com a prisão de três estudantes da USP, por simplesmente fumarem. Foi só o começo. O cerco todo já se armara com o acordo que o magnífico reitor João Grandino Rodas, outrora, assinara com a PM, a fim de estabelecer rondas ordeiras na Cidade Universitária. O circo pegou fogo, mas o fogo só chamuscou de leve na cobertura da imprensa, que tratou do assunto serena e calmamente, com a paz e a benção do governador do Estado de São Paulo Geraldo Alckmin e seu subalterno Rodas.
Gostamos sempre de reavivar memórias. Do contrário as esqueceríamos, como sempre nos esquecemos de recapitular os giros passados dos Rodas da vida. É válido lembrar que, entre 1995 e 2002, com a soberba do poderio, Grandino Rodas integrou a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos. Com o poder nas mãos, ele pôde apurar sobre a morte de militantes políticos do período da Ditadura Militar, dentre eles o filho da estilista Zuzu Angel. Como era de se esperar, ele inocentou os militares responsáveis por “preservar vidas e aplicar a lei”. Digno de quem de grande só tem o despotismo nos tempos do cólera.
Não é de ver que o atual reitor da USP também tentou “privatizar” o espaço público da universidade, que, aliás, deveria ser o universo de todos. Pois bem, quando administrou a Faculdade de Direito, o despotinha tentou implantar catracas no prédio da instituição, mas só para evitar estranhos, nada demais. E tudo isso sem consultar nem o corpo burocrático da Faculdade, tampouco os estudantes, é claro. É... Parece que quem precisa de “ter aula de democracia, de respeito ao dinheiro público e ao patrimônio público” não somos nós, os estudantes, não é mesmo, Alckmin?!
Essa tendência arbitrária é o derradeiro amor de quem tem o poder e de quem pactua com o poder para alcançá-lo. O Estado que dignifica e institui a força em prol da repressão é o mesmo que profere o grito da democracia e fala em nome de um país democrático. Balela.
A guerra que deveria ser contra a demagogia da política do porrete é contra os estudantes e encapuzados que pedem pela liberdade destoada pela ameaçadora e repressiva presença militar no âmbito acadêmico do diálogo e da construção do saber. A polícia, que deveria dar segurança, apresenta suas armas com escudos, cassetetes, capacetes reluzentes e reprime. É assim que Estado e militarismo mantêm-se invictos e amistosos, graças à política do tête-à-tête.

sábado, 6 de agosto de 2011

Máscarações


          A prática é antiga e advém, inicialmente, de uma criação fantástica e religiosa. As máscaras foram criadas e associadas ao misticismo. Por meio dela, o sagrado adentrou no imaginário humano, que se revestia de força e poder espiritual cada vez que um homem fosse mascarado. Como em uma transfusão, as divindades atribuíam todo o seu poder aos mascarados, em algumas civilizações.

Aos poucos, o teatro grego e romano estabeleceu uma função figurativa para as máscaras, que passaram a limitar a linha entre ator e personagem. Chamada em latim de personna, elas transgrediram os palcos e invadiram a estética decorativa. Assumiram muitos outros papéis e, antes de tudo, transcenderam o homem. De tempos remotos são utilizadas instintivamente pelos animais para se camuflarem dos perigos mundanos. Mascarar-se é uma ação tão elementar que a própria natureza incorporou a função de disfarce nos troncos, folhas e pedras.
Do sagrado ao profano, do misticismo à estética, da comédia à tragédia, do real ao lúdico e do instintivo ao racional, as máscaras caminharam para modernidade com os pés da tecnologia e com finalidades múltiplas. Máscaras de oxigênio, máscaras cirúrgicas, estéticas e protetoras. Entretanto, sem abandonar os resquícios da cultura greco-romana, são as personnas  que prevalecem e personificam diversos e distintos disfarces sociais.
Seria confusa e irrisória a vida sem máscaras. Usadas como heterônimos, elas ocultam a essência de quem as usa, misturam o bem e o mal. O seu poder de iludir tornam-nas democráticas. Super-heróis, bandidos e terroristas, todos as usam em prol de um ideal. Fantasiar-se emancipa-nos e torna a nossa realidade inatingível e invisível.
Em ações cotidianas, usar máscaras evita passar pelo constrangimento de estereótipos e contrapõe a realidade simples e absurda. As crianças choram por nítidos desejos, as fotografias carregam sorrisos forçados, escondemos as tristezas e as lágrimas, embelezamo-nos com a didática da vida profissional, vestimos a máscara da democracia e da lucidez e aparentamos ser fortes.
Em sociedade, passamo-nos por cidadãos morais de bons costumes e fingimos ser educados, dotados somente de boas qualidades. Na política, vestimos o terno da burocracia para ganhar tempo, fingimos as boas relações internacionais e a preocupação com a sociedade, mascaramos o desejo de conquista e poder com as guerras contra o tráfico e o terrorismo.
Necessárias, as máscaras desmascaram as nossas fraquezas, impotências e inquietações. Quando caem, tomba-nos em queda mútua. Prepotentemente, fazem-nos reféns do instinto, da racionalidade e, sobretudo, da emotividade. Sem elas, não passamos de reles alvos susceptíveis a ataques e desprovidos de defesa.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Imprensadores


Aclamado como grande sociólogo e jornalista, em 2003, Perseu Abramo põe em mesa uma discussão sobre a submissão da grande imprensa junto aos jogos de poder e interesses políticos, diante da manipulação da realidade veiculada pelos meios de comunicação. Abramo fez-se repercutir utilizando-se de uma grande teorização da maneira como a grande mídia manipula a sociedade. Tais constatações foram expostas no seu ensaio “Padrões de manipulação na grande imprensa”, lançado pela Editora Fundação Perseu Abramo em São Paulo, com um volume de 64 páginas.
Nascido na capital paulista, em 1929, Abramo passou profissionalmente por vários grandes veículos de comunicação. Trabalhou no jornal O Estado de São Paulo,  na Folha Socialista, na Folha de São Paulo, além de ter trabalhado na Rádio Eldorado e na TV Globo. Exerceu a docência na UnB, na UFBa, na Puc-SP e na Fundação Armando Álvares Penteado e, por 16 anos, foi dirigente do PT.
Apresentado por José Arbex Junior, com o prefácio feito por Hamilton Octavio e com o posfácio de Aloysio Biondi, o livro “Padrões de manipulação na grande imprensa” retrata, de forma objetiva e sucinta, as relações de poder que a mídia legitima diante dos interesses de mercado e das medidas políticas adotadas pelo governo. Para manter o caráter hierárquico comandado pelo capital financeiro que rege as grandes corporações, a grande imprensa exerce, com perspicácia, o seu papel como instrumento de dominação social.  
Abramo denuncia que o caráter autoritário de dominação dos meios de comunicação é mantido graças à forma como a mídia trata os fatos e a realidade, de acordo com as necessidades de uma comunicação mercadológica. Nessa perspectiva, a ação de fragmentar, ocultar, priorizar ou subverter os fatos está intrinsecamente ligada à instituição de uma realidade artificial, amparada pelas especificidade dos interesses de grandes empresas privadas.
Para continuar exercendo o poder e para atribuir conhecimentos construídos não por uma prática empírica por parte da sociedade, mas sim pela construção de um saber raso, outorgado e autoritário ditado pela mídia, é necessário que a imprensa manipule informações e recrie a realidade.

sábado, 4 de junho de 2011

Recodificando o retrocesso


Não é de hoje que latifundiários e ruralistas proferem o grito contra as leis de defesa ao meio-ambiente. Já foram executadas várias tentativas a fim de destituir o Código Florestal Brasileiro (Lei nº 4771/65). Embora o tempo provenha algumas mudanças na forma de se discursar politicamente contra as leis ambientais, os argumentos são sempre os mesmos.
Até hoje o falacioso discurso de que algumas medidas legais colocam barreiras no desenvolvimento agropecuário do país não caiu em desuso. A mais recente investida é a do deputado Aldo Rebelo do PCdoB de São Paulo. Em poucas palavras, o  projeto de Rebelo e de sua turminha pressupõe que as propriedades rurais de até quatro módulos fiscais fiquem desobrigadas de recompor a área de reserva legal. Isso significa que somente essa mudança no atual Código Florestal Brasileiro contribuiria para que 90% dos imóveis rurais aumentassem o desmatamento em até 70 milhões de hectares no Brasil.
Na votação do relatório da comissão especial, todas as entidades representantes da pequena propriedade e da agricultura familiar posicionaram-se contra as mudanças. Sabe-se que o agronegócio voltado para a exportação é o maior interessado e seria o setor mais beneficiado com uma possível alteração do Código Florestal. A situação ratifica-se e se compromete ainda mais na  medida em que a maioria dos nossos representantes políticos constitui a grande bancada ruralista no Congresso Nacional.
O fato é que, para os ruralistas, ampliar a competição no mercado internacional é uma justificativa suficientemente forte para mascarar um grande retrocesso político e social. Com as atuais discussões sobre sustentabilidade, que culminará na conferência sobre desenvolvimento sustentável e economia verde, que será realizada no Brasil em 2012, é alarmante recuar décadas nas políticas de sustentação ambiental com as mudanças do Código Florestal.
Os anseios da bancada ruralista ratificam a crise de uma democracia falida. Constitucionalmente, a proposta de Aldo Rebelo transpira dubiedade, ferindo vários pontos da Constituição Federal, como o Artigo 170, que prevê a função social da atividade econômica e a defesa do meio ambiente entre os princípios gerais da atividade econômica.
Como toda a legislação, o Código é passível de aprimoramentos que, teoricamente, deveriam conceder à população o direito de participar de uma discussão que é de interesse de todos e compromete o futuro de próximas gerações. O Estado, enquanto instituição representativa da sociedade, deveria ater-se à sustentabilidade socioambiental e econômica, garantindo a preservação do meio-ambiente e, sobretudo, social.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Sambagode



Palco de múltiplas efervescências culturais, a década de 1980 abriu alas à nova cosmovisão sociocultural que fortaleceu a edificação mercadológica das manifestações culturais no Brasil. Um movimento musical baseado no samba carioca nasceria firmando a acepção de música atrelada à indústria cultural brasileira.
Nascido de reuniões informais no subúrbio do Rio de Janeiro, o pagode passou, cada vez mais, a adentrar no circuito da indústria fonográfica. A ideia de encaminhar o novo gênero ao público consumidor surgiu da percepção empírica de que um gênero musical direcionado às classes economicamente inferiores poderia se transformar em um produto rentável. Até então, o pioneiro samba não possuía um público lucrativo e foi só depois de uma adaptação do pagode, de acordo com o gosto das classes consumidoras, que essa nova vertente do samba passou a agradar com as vendas de LPs.
Com a maior disseminação do samba nas rádios na década de 1990, os blocos carnavalescos das escolas de samba passaram de um cortejo de rua da comunidade a grandes associações institucionalizadas. O paradigma do samba-enredo como espetáculo passou a destoar da vontade popular de diversão informal, incitando a disseminação de rodas de pagodes. Passariam a se efetivar nessas rodas a independência da manifestação cultural diante dos meios de comunicação.
Fundado em 1961 a partir de um núcleo familiar, o bloco Cacique de Ramos manteve o viés da proximidade direta com a comunidade, porém aderindo à nova modalidade sociomusical da época: o pagode. O grupo de músicos lançava mão de refrões apelativos, a fim de que as composições fossem de fácil memorização para toda a comunidade. No fundo de quintal, os pés no chão, a feijoada completa no prato e o papo afinado regiam a orquestra popular da cadência bonita do samba. A roda de samba fazia-se girar com o revezamento dos músicos divididos ora pela conversa de butiquim, ora pela mulata assanhada, ora pela batucada. Enquanto isso, no pagode, o samba de roda girava em torno das umbigadas das morenas de alegria estonteante.
Embora novos blocos sociais de manifestações culturais fossem surgindo sob a vertente do pagode, foi somente a parceria de Beth Carvalho com os músicos do Cacique de Ramos que injetou o pagode no interesse da indústria fonográfica. Mais tarde a formação do grupo Fundo de Quintal seria elementar para a assimilação da indústria cultural à nova roupagem do samba carioca. O grupo, além de incluir a percussão portátil no gênero recém-nascido, inovou na estrutura melódico-harmônica das músicas e no modo das apresentações públicas.

Enquanto os músicos de samba eram projetados no contexto da MPB e da formação de ídolos, os pagodeiros começaram a se projetar na veiculação midiática do pagode. A partir da década de 1990, o lançamento de pagodes mais românticos foi priorizado em razão da preferência do público consumidor. Grupos como Raça Negra incorporaram ao gênero elementos da música pop, utilizando-se de baixo elétrico, de bateria e de sintetizadores. De uma prática popular coletiva e, ocasionalmente, hedonística, o pagode dissuadiu-se a uma forma rentável de mercadoria midiática.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Trans-elucidando

Responsável pela adesão do racionalismo à política e à análise social, o Iluminismo, historicamente, finda as premissas de um mundo teocêntrico. A partir dele, o caminho para a construção da sociedade moderna, nítida e obscura, faz-se aberto. E é nesse momento que a normatização do âmbito social submete-se à razão. Chamado de “Século das Luzes”, esse período perpassa pelo veredicto de que a universalidade do racionalismo é dada como a única forma para alcançar o conhecimento.
O “Penso, logo existo” de René Descartes introduz a noção de indivíduo como agente de transformação social na condição, única e exclusiva, de sujeito pensante. Nesse estágio de uma nova abordagem sociocultural do homem, a aptidão humana de decodificação e reprodução da cultura de uma determinada sociedade é um fator decisivo para a adesão à cosmovisão da cognição.
Nessa perspectiva, consiste-se inapto e, por conseguinte, incapaz o indivíduo que não se adequa às regras de convívio social, seja pela sua incompatibilidade cultural, seja pela sua incompatibilidade de gênios, ou pela sua divergente condição psicológica. Opor-se aos atos e pensamentos padronizados de dada sociedade precipita, na concepção moderna, a idéia de anormalidade, muita das vezes atrelada a algum tipo de patologia psíquica.
Mais do que pelo racionalismo, a nossa humanidade é garantida por meio dos precedentes presságios da loucura. É a aptidão sensitiva aguçada, um dos primeiros sintomas da insanidade, que instiga a avidez do homem para se encontrar reciprocamente com a arte. Como expressão da introspecção humana, o desenvolver-se artisticamente inaugura o homem como produto do espaço e do tempo vivido.

Muito tênue é a linha que limita a loucura e a genialidade. Imaginação, criatividade, memórias, devaneios, desejos, pensamentos, desordens. O subconsciente humano abriga a sensibilidade, fome da arte, que, em um desequilíbrio harmonioso, pode-se confundir com a patologia psíquica da loucura. Van Gogh, representante da vanguarda expressionista do século XX, ao mutilar suas próprias orelhas para se autorretratar, é um exemplo da explícita tenuidade entre o genial e o insano.

Uma vez diagnosticado o estado de deficiência cognitiva, tem-se também o diagnóstico social da estigmatização e da discriminação. Como visto nas psicanálises de Freud, mais do que como uma questão de salubridade psíquica, a loucura deve ser tratada como uma patologia social, que, quando ancorada pelo segregacionismo do pensar metodológico, se desprovê de tratamento.
É nesta patologia social que Shakespeare, em sua obra “Hamlet”, inspira-se para evidenciar a loucura como uma maneira de transgressão das regras e verdades sociais.  Passando-se por louco, o personagem Hamlet abdica-se da razão e eleva a loucura ao patamar de signo dominante no convívio social.
Da lucidez tem-se o prognóstico do racional e da insanidade, o prognóstico do que não se percebe nas entrelinhas.


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Sarnas tropicais




Já não precisaria se fazer escritores como os de antigamente. Nada de abstrações subjetivas da sociedade, idealizações subversivas, medos e conflitos da instropecção humana, observações regionalista-sociológicas sobre a cultura elementar de um povo. Caminhar nas ruas de um Brasil evasivo já é o bastante para se constatar uma boa história.
As célebres análises machadianas, o socialismo científico de Marx e Engels, as almas aprisonadas de Clarice Linspector e os neologismos de Guimarães Rosa são pequenos perto da obra do Dono do Mar, condecorado membro da política Academia Brasileira de Letras. Como se não bastasse a posse do mar, referenciada pelo título do romance sarnesco escrito em 1995, o Acadêmico detém também o domínio feudalizado do Mar-anhão.
Não só no nordeste do Brasil surgem peripécias que inspiram atrevidas aventuras literárias. Em Brasília, região Centro-Oeste do país, o Senado Federal congrega um amplo espaço que incita o imaginário literário de quem por lá vaga.  Como em um ritual da antropofagia brasileira, lá surgem enredos que se deglutem e se revertem em produtos finais. Dos vários gêneros propícios desses produtos, surgem o drama social, o suspense inflacionário, a comédia da incompetência, o romance partidário e, com difamações e tabefes nas sessões plenárias, temos até um pouco do gênero ação.
Os traços culturais do Brasil apresentam-se de forma demasiada em Brasília, sede do âmbito político do país. Comparadas às centenas de histórias literárias que o Senado pode nos render, o cenário político nacional pode ofertar-nos muitas das nossas frutas tropicais.
O picadeiro frutífero da política brasileira oferece-nos o limão e seu vertiginoso azedume, muitas bananas, especialmente oferecidas aos brasileiros, e, com grande freqüência, muitas laranjas, grandes e suculentas. Como em uma feira de livre concorrência, as laranjas, gordas e apetitosas, nos saem caras com precedentes concisos de corrupção em sua forma genuinamente gersoniana e, em contrapartida, as bananas, nos são oferecidas com cheiro de podridão.
Recatado e discreto, o brasileiro, cuja sagacidade o faz um “brasileirinho” de terno e gravata na presidência do Senado reelege-se pela quarta vez, livre de grande concorrência. Em uma mescla de posseiro de terras e de experiente aristocrata defensor da democracia lúdica, ele se apossa da brasilidade, referida ingenuamente por Gérson, para compor a política da laranja e circo. Nesse perrengue, o “importante é levar vantagem em tudo, certo?” já não se remete à ambição construtiva de querer se dar bem, e sim à ostentação do lucro e do poder.
Comicamente, além de bananas, ganhamos de brinde, muita sarna para nos coçar, fruto das nossas escolhas suprimidas pela ânsia incessante de nos enquadrarmos na tão citada lei de Gérson.
Em pleno século XXI, ainda vivemos na era dos dinossauros dos recantos de Brasília, que se espalham por todo o Brasil. Dos longínquos tempos da ditadura militar de 1964, ainda temos vestígios das sacadas grandiosas dos políticos de cabeça branca, cujos fios foram, gradativamente, consumidos pela experiência do tempo e pela prática de levar vantagem em tudo.
Abacaxis não fazem parte da preferência dos jurássicos. Mais uma fruta para nós, os consumidores de bananas. Não descascamos e não devoramos as bananas, mas descascamos e lidamos – e muito! - com os abacaxis. Somente o frescor das laranjas deve continuar a atiçar o olfato e o paladar dos dinossauros nos próximos dois anos de Presidência do Senado Federal.
 Haja sarna para coçar!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A nova roupagem da tradição



 
A denominação caipira é utilizada, genericamente, para designar os habitantes das regiões situadas, principalmente, no interior do Sudeste e do Centro-Oeste do Brasil. A música caipira é um dos traços marcantes da cultura interiorana. Ao longo das décadas, a adição de novos instrumentos, a utilização de novos rítmos e linhas melódicas e a disseminação da indústria cultural contribuíram para o surgimento da atual música sertaneja. Aos 29 anos, o cantor, compositor e violeiro Almir Pessoa tenta resgatar a cultura caipira por meio da música sertaneja de raiz.

O que vem à sua cabeça quando se fala em música sertaneja de raiz?
Almir Pessoa: Tião Carreiro. Quando se fala em música caipira, pra mim, na cabeça, vem o Tião, porque ele pegou uma viola que era utilizada em festas de tradição e criou essa batida, o pagode. Não estipulou, mas usou muito essa afinação em “cebolão”, em mi maior. Deu um “boom” de música caipira e música sertaneja e rodou o Brasil inteiro.

Qual foi o seu primeiro contato com a música caipira?
Almir Pessoa: O meu contato com a viola se deu em Folia de Reis. Eu comecei, não sei por que “cargas d’água”, a observar os violeiros tocando ali, dançando catira e eu vi um violeiro em particular, um violeiro chamado Jair. E aquela “suingueira” da mão direita, no caso, me chamou a atenção, aliado àquela onda, àquele negócio diferente. Eu já tocava um pouquinho de violão e aquilo me chamou muito a atenção. E naquele dia eu falei “Rapaz, eu acho que eu quero tocar viola”. Um ano depois, eu fui presenteado com uma viola e então comecei a minha trajetória.

Qual é público mais adepto ao gênero caipira?
Almir Pessoa: Dentro do meu estilo, mercadologicamente, creio que meu público alvo é de pessoas de 26 anos pra cima. Eu tenho notado que as crianças têm tido uma afinidade muito grande com a música caipira. Eu digo isso pelo ressurgimento do gênero na mídia por meio de personalidades de programas de televisão, como Inezita Barroso e Rolando Boldrin.

Por que o termo música sertaneja foi usado em substituição ao termo música caipira?
Almir Pessoa: Esse nome música sertaneja foi um termo dado por gravadoras para a música caipira, mais ou menos no ano de 1944, quando surgiu o primeiro selo com a dupla Pedro Benta e Zé da Estrada. Essas músicas vendiam muito desde 1929, quando Cornélio Pires começou com as trupes de música sertaneja, circo e todas aquelas coisas. Isso criou uma efervescência cultural muito grande, porque, com o êxodo rural, as pessoas saíam do campo para ir pras mediações da cidade de São Paulo. Nesse período, Monteiro Lobato teve a infelicidade de criar o personagem Jeca Tatu. As pessoas não queriam ser chamadas de caipira e comparadas ao personagem matuto de Lobato. Elas queriam ser tratadas como urbanas. Percebendo isso, as gravadoras denominaram a música caipira como música sertaneja. Até então era a mesma coisa. Mas começaram os hibridismos musicais. Com artistas, por exemplo, como Léo Canhoto e Robertinho, a música sertaneja hibridou com a música americana e trouxe elementos de faroeste, bang-bang. Ela hibridou e foi se transformando no que é hoje: música sertaneja, sertanejo universitário, sertanejo disso, sertanejo daquilo.


Qual é a receptividade da música sertaneja de raiz no exterior? 
Almir Pessoa: Bem, em Londres, em 2007, eu estava tocando em um lugar chamado Barracuda. Devia ter umas 700 pessoas mais ou menos. Pra público europeu, é muita gente, porque os locais de lá são bem pequenos. Nesse dia, um inglês me falou algo que me chamou bastante atenção. Ele me chamou no particular, depois do show, e me disse o seguinte: “Olha, do Brasil eu conhecia samba, carnaval e mulher pelada. Você trouxe uma mensagem diferente de algo que tem tanto valor quanto o samba e quanto o carnaval”. Acho que esse fato sintetiza bastante, na verdade, a aceitação da música caipira lá fora.

Você sofre preconceito por tocar música caipira?
Almir Pessoa: Por causa da música caipira, eu não sofro preconceito. Por exemplo, a gente está aqui em uma instituição de ensino superior. Aqui, se você entrar dizendo que toca música sertanejo-universitária talvez você venha a sofrer algum tipo de preconceito. Até por esse termo, o sertanejo universitário, nós, que somos universitários, esperamos uma música mais provocativa. Já com a música caipira, acontece diferente. Ela tem uma aceitação maior porque está muito ligada à tradição e à música de raiz.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Uma abortagem shakespeareana




Unânime. A defesa da vida é, universalmente, unânime. Para ser acometido como homem, em sua porção de longínqua e magistral igualdade, a noção de indivíduo faz-se presente com base no conceito de vida e no seu devido desenvolvimento – ou seria no desenvolvimento da devida vida?!
A nossa vigente índole vita-defensorial condiciona-nos, moralmente, às indagações shakespeareanas do ser ou não ser, do ver ou não ver e do ter ou não ter.  Como sempre ocorre nos assuntos-vigas que sustentam os valores da sociedade, dá-se, assim, a discussão sobre a inconstitucionalidade ou legalidade da interrupção de gestações cujos fetos são anencéfalos, ou seja, fetos que só sobrevivem em um estágio intrauterino de sua vida.

Com efeito, o desfavorecimento à legitimidade do aborto nesses casos – sanção que, já em vigor, proferiu o procedimento abortivo legal somente em casos de gestações resultantes de estupro e de gestações cuja vida da mãe corre risco – choca-se, em todas as instâncias cognitivas, com o sentir na pele do que vem a ser mulher. Viver e, sobretudo, sobreviver, física e psicologicamente, à espera de uma vida que, fora do útero materno, de uma forma ou de outra, será fisiologicamente cessada consolida a peripécia do ato de ser.
O ver ou não ver fica a cargo do dito laicismo brasileiro, mesmo que ele não vigore de forma prática nas concepções sociais. O Estado laico e sua respectiva cria social, cada vez mais, regados de moralismos intermediados pelos dogmas religiosos, desconsideram qualquer análise científica da decorrência desse impasse na vida progenitora de uma mulher que abriga uma vida impossível.
Segundo o secretário-geral da CNBB e bispo auxiliar de São Paulo Dom Odilo Pedro Scherer “ela [a Igreja Católica] é a favor da vida e da dignidade do ser humano, não importando o estágio do seu desenvolvimento, ou a condição na qual ele se encontre”. Mas que dignificação é essa que inferioriza a subjetividade do indivíduo? Que o pejora como infrator das leis de Deus diante de uma sociedade e de uma instituição religiosa, sob o jugo da excomungação? Seria uma ordem divina a determinação de que, aleatoriamente, algumas pessoas recebam a dádiva da anencefalia?
Nessa instância, a discussão assume acepções ideológicas, cuja doutrina remete-nos ora ao poderio de influência de instituições medievas, ora à defesa dos direitos humanos – em que humanos, simbolicamente, refere-se à vida e o seu efetivo desenvolvimento.
Os direitos? Tem-se a questão: ter ou não ter?

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

E da sabedoria ameríndia: uma maneira de se pensar o trabalho




A significação da ordem em oposição ao caos impera no conceito da palavra cosmos – oriunda do grego kosmos. A partir desta perspectiva constrói-se o sentido da realidade do homem andino. A ordem atrela-se, intrinsecamente, à relação do tempo e do espaço com o equilíbrio das dinâmicas naturais. É sob estas dinâmicas naturais e sob a lei da natureza que se determina e se constrói a sabedoria e, sobretudo, a sobrevivência dos ameríndios.
O modelo eurocêntrico da colonialidade instituiu ao pensamento ocidental uma concepção unitária do processo de origem criadora de todo o cosmo universal. Esta noção configurou um olhar individualista, ratificando a perspectiva de que tudo e todos se submetem a uma unidade criadora.
Cholitas no Lago Titicaca, na Bolívia
A gênese bíblica do cosmo consolidou a mitologia do pecado original como precursora do embate entre criador e a submetida criatura. A unidade criadora, desta forma, é responsável pelo nascimento da concepção punitiva do trabalho, instituído pela sua aptidão em subjugar o homem à opressão e ao castigo.
Vinculado ao pensamento ocidental, o trabalho foi incorporado à dinâmica sistêmica dos processos capitalistas. Nessa perspectiva, a ocidentalização do homem engendrou a atribuição do trabalho como uma ferramenta de acumulação de riquezas por meio da exploração e capitalização dos recursos naturais.
Induzido à condição de exterioridade perante a natureza, o homem ocidentalizado almeja transmutar o castigo do trabalho para a busca pelo prazer egoísta, representado pelo acúmulo de riquezas.
O conceito congregacionista da cosmovisão andina pressupõe a totalização e a não fragmentação do meio cósmico, da natureza e do homem. Há uma reciprocidade entre os elementos naturais, a vida social e as ações humanas sempre direcionadas ao cosmo.
A realidade andina baseia-se na noção cíclica do equilíbrio da dimensão humana, da dimensão cósmica e da dimensão natural. Não há a submissão do homem enquanto criatura de uma unidade criadora, característica que integra veementemente o homem como elemento necessário à construção e manutenção de um espírito único e coletivo.
A noção de pacha elucida a alteridade e o respeito que o homem estabelece com a natureza, uma vez que, nesta cosmovisão, para garantir a sobrevivência humana, é necessário garantir a manutenção da infinidade e interação cíclica do tempo, do homem e do espaço. É nesta alteridade que, na sociedade dos Andes, habita a inexistência do individualismo. A lógica dos ameríndios formaliza o coletivismo ou comunitarismo como ordem fomentadora da vitalidade do mundo e da vitalidade humana.
A partir de uma concepção comunitarista e da construção social do equilíbrio das dinâmicas naturais, o homem andino edifica, coletivamente, o trabalho como uma forma de transcendência, dado ao papel complementativo que o trabalho atribui à existência da Mãe Terra.
O amor incondicional dos andinos à Pachamama, a Mãe Terra, revigora o espírito da reciprocidade dos ameríndios. Nesta perspectiva, o trabalho é considerado um aparato de altíssima virtude que se dispõe de um meio para contemplar a bondade e generosidade de Pachamama. Toda a constituição da sabedoria e concretização da cultura dos povos é resultado do prazeroso trabalho, que concede à figura magnificente da Mãe Terra os votos de agradecimento e engrandecimento dos andinos.

sábado, 25 de dezembro de 2010

O protocolo das controvérsias

Cada vez mais empetecado e oportuno, o mês de dezembro, gradativamente, vai sendo colorido. Os primeiros rajados de cores surgem tímidos, logo na primeira semana do mês com diversas propagandas cinematográficas sobre a chegada das festividades de despedida do ano. Iniciam-se os preparativos para a montagem do set. Chuva de imagens felizes, chuva de cores e brilhos, chuva de luzes na cidade. O vermelho vai tinindo, tênue e progressivamente, até despontar e explodir nos pisca-piscas de árvores mortas e artificiais, nas casas, que, outrora, estavam desabitadas de luz.
A escala cromática do mês de dezembro evoca o espírito natalino. Imediatamente ele se impregna e se incorpora nas mais rentáveis formas de felicidade.  O comércio se esbanja com as regalias da vontade de fazer o outro feliz. Os mais inusitados sonhos são caçados, apreendidos e logo se extinguem quando comprados e presenteados.

De repente surge uma súbita ânsia e um estratosférico desejo de fazer o bem. Uma corrente é formada em prol da solidariedade e das boas ações. A tentativa social é de fazer jus à paz e à harmonia, trazidas miticamente por essa energia do mês de dezembro. E no decorrer do ano, nada de boas ações, tampouco campanhas fraternas. O que impera é o sagaz jeitinho brasileiro da Lei de Gérson, em que o “importante é levar vantagem em tudo, certo?”.
Chega o dia do natal. Os daltônicos não vêem as cores importadas que representam esse período festivo, mas, com toda certeza, sentem a áurea oblíqua e dissimulada do espírito natalino. O bom velhinho esconde-se atrás da barba branca para escolher a dedo quem será presenteado. Afinal quem não tem dinheiro não merece presentes, certo?!
Nas rádios só se ouve as noites felizes na voz de Ivan Lins, além de outras regravações natalinas de BB King, Ramones, Simone, James Brown, Sinatra e muitos outros. O clima mágico do natal contagia e até promove uma vã e única noite feliz para muitas famílias que, uma só vez do ano, se encontram para não quebrar o protocolo social do dia 25 de dezembro.
Ahhh, o Natal! Com carinho e afeto, vamos ao filme do natal. Luz, câmera, ação!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

E nessa onda meio hermética: Imagens do não visto


Uma  resenha do filme Janela da Alma

Entrar em consenso nas discussões inerentes ao mundo e à vida não é uma tarefa fácil. O homem, dotado de sentidos sensitivos, é responsável pela criação da realidade do mundo e, consequentemente, pela criação subjetiva da sua realidade. De acordo com os diferentes graus de percepção, relacionados à atribuição de signos e significantes, as formas de visões de mundo são concebidas pelo uso dos cinco sentidos humanos que, constantemente, dialogam com os diversos contextos culturais da sociedade. A partir dessa abordagem, o filme Janela da Alma, de João Jardim e Walter Carvalho, lançado em 2002, possibilita discussões de cunho filosófico, artístico, psicanalítico e científico, tendo como aparato os limites físicos de diversos níveis de acuidade visual.
Ver o mundo não estabelece uma intrínseca relação com o sentido denotativo da visão. O olho como janela da alma não expressa o espelho do mundo, uma vez que o enquadramento da janela requer a visão de um outro olho, que seria uma nova janela, desencadeando, assim, um processo refletivo infindável, como já havia analisado o poeta Antônio Cícero. Infere-se que a assimilação e visão da realidade atrela-se, intrinsecamente, às emoções idiossincráticas.
O documentário Janela da Alma recorre à perspectiva do ver sem enxergar, através de um debate abstrato e filosófico sobre o tema da visão. O filme constrói-se pelo depoimento de dezenove entrevistados, de míopes a cegos, que discorrem sobre as formas de visão, o fato de não ver e o fato de enxergar a realidade de forma única. Dentre o amplo leque dos debatedores está o escritor José Saramago, o músico Hermeto Pascoal, o poeta Manuel de Barros, o neurologista inglês Oliver Sacks e o filósofo esloveno Evgen Bavcar, que, enxergando o invisível, fotografa o mundo das imagens.
A abordagem e reflexão do tema não se abstêm apenas à fala dos entrevistados. A trilha sonora de José Miguel Wisnick conversa o tempo todo com cada imagem e cada ação dos personagens. A  investigação dos míopes diretores João Jardim e Walter Carvalho propõe às cenas imagéticas a sensação de enquadramento de uma pessoa que utiliza óculos, de um míope que, sem óculos, vê  as pessoas e os objetos em borrões de cores, a sensação de um cego, que cria um mundo particular, e a sensação do cego contemporâneo, envolto pela alegoria da Caverna de Platão, aprisionado pelas cegueira social.
Janela da Alma não apresenta a defesa de uma tese e sua estrutura fragmentada não constitui um enredo linear, permitindo, assim, uma vazão metaforizada das interpretações poéticas e líricas propostas pelo documentário.
A atual conjuntura sistêmica social, vinculada à lucratividade como finalidade única, é criticada pelos diretores, por meio dos depoimentos dos entrevistados. Questiona-se, no documentário, o advento da indústria imagética, que instituiu a toda e qualquer tipo de imagem o caráter propagandístico de venda, fato que desmantela a construção de uma visão filosófica e artística das imagens.
Ganhador de vários prêmios, o filme de Walter Carvalho e João Jardim é de grande relevância para a derrocada da ideia limitadora que invalida socialmente os portadores de deficiência. Pelo contrário, a evidente ratificação da maior sensibilidade desenvolvida pela supressão do sentido da visão, amplia, nessas pessoas, a dimensão de assimilação humanística de fatos corriqueiros, imperceptíveis a um olho que simplesmente vê.


domingo, 19 de dezembro de 2010

Hermética salada à brasileira

   Década de 30, século XX. Nascia, filho inconsciente do movimento antropofágico do modernismo, o pai da brasilidade instrumental do Brasil. Mais precisamente no dia 22 de janeiro de junho de 1936, no município de Lagoa da Canoa, estado de Alagoas. 
   Ele, o início de uma revolução musical no país, cuja base nordestina foi cosmopolizada pelos grandes centros, protagonizou, assim como na literatura de Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, a abertura dos olhos do mundo para a riqueza cultural do Brasil.
   Filho de humildes trabalhadores da zona rural, o albino Hermeto Pascoal foi polpado do trabalho sob o sol. Desde então, um prodígio autodidata, Hermeto passou a se dedicar à pratica do acordeão, a sanfona tocada por seu pai.  Aos doze anos, Hermeto já ajudava a família tocando em bailes e eventos locais, com a companhia de seu irmão mais velho José Neto.
   Com pouca visão e uma audição apurada, o nordestino interessou-se por muitos dos instrumentos com os quais tinha contato nas noites de trabalho. Em pouco tempo já dominava, além do acordeão, piano, pandeiro, flauta, contrabaixo, triângulo, sapatos, barras de ferro, cadeiras, som de animais, percussão corporal. Hermeto, que desde pequeno deslumbrava os sons da natureza, foi de Lagoa da Canoa a Recife, de Recife ao Rio de Janeiro, do Rio a São Paulo e de São Paulo direto para o mundo. Fez-se conhecido como um revolucionário músico da tradição popular nordestina do Brasil. Mesclou o regionalismo nordestino com o samba, o choro e o jazz, agregando à sua música o caráter peculiar da identidade nacional, vinculada às múltiplas facetas e possibilidades musicais da natureza.
   Muito mais do que uma nova visão conferida ao ouvir a miscigenação da cultura brasileira, a obra de Hermeto condiz com a atribuição do belo em virtude do humano.
   Somente depois de 40 anos de reconhecimento nacional e internacional, - aliás uma referência muito mais arraigada no exterior do que no próprio Brasil - o multinstrumentista experimentou estudar na teoria o que ele próprio já ensinava aos músicos acadêmicos na prática. Desde então faz uso da teoria musical e não permite que ela o utilize e o aprisione.
   Hermeto "bateu asas do sertão" e, em um perfeccionismo reatado pela busca da diversidade sonora, ressalta, cada dia mais, o encontro da arte com a cognição sensitiva de um homem.